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Chardonnay – Um conto despretensioso

Ainda não eram cinco horas da manhã quando François se levantou para mais um dia de trabalho nos vinhedos da família. Seu corpo ressentia-se das últimas duas semanas de intenso esforço por conta da colheita. O mês de Setembro avançava veloz e François sabia que a Chardonnay precisava ser colhida rápida para não perder o seu frescor e a acidez.

François fazia parte da oitava geração de uma família de vinicultores que cultivava Chardonnay nas proximidades da cidade de Epernay, Côte de Blancs. A família inteira se ocupava da propriedade, seu pai cuidava da adega, sua irmã acabará de concluir o curso de enóloga pela universidade de Dijon (Borgonha) e ele era responsável pelos vinhedos. François amava seu trabalho, lembrava do avô, Albert, que lhe ensinara os truques e caprichos daquela terra, ou melhor, terroir como os modernos agora falavam.

Naqueles dias que antecediam a chegada do Outono, François sofria com as baixas temperaturas da manhã. Para espantar o frio, ele conversava com as videiras, pedia permissão para arrancar-lhes os cachos e assim fazia seu trabalho absorto num mundo mágico. Estava agradecido por aquele ano não terem ocorrido as temidas geadas de Primavera, a floração precoce da Chardonnay a deixa muito suscetível às intempéries. Por vezes, lembrava dos ensinamentos do avô e já imaginava o vinho pronto que fora fermentado em madeira velha para “arredondar”. Seus aromas eram de minerais e de frutas adocicadas, abacaxi, pêssego, damasco e manga. Algumas vezes, dependendo do tempo que ficou na madeira, o vinho apresentava um aroma e gosto que remetiam ao mel, melaço e manteiga. Mas o que mais François gostava era da sensação que o vinho causava na boca. Acidez marcante, frescor com o álcool equilibrado e, ao mesmo tempo, algo untuoso. Nesse exato momento ele associava perfeitamente o vinho ao seu vinhedo e isso o deixava orgulhoso. Conseguia reconhecer naquele gole a sua terra, a sua história. Para ele, isso era o mais importante.

Nos últimos anos, François ouvira falar muito de Chardonnays sendo feitos pelo mundo afora, muitos deles com excelente qualidade e características marcantes. Nunca se esqueceria das novidades que sua irmã contou quando estava de férias no segundo ano da faculdade. Segundo ela, o mundo estava maravilhado com os chamados vinhos do Novo Mundo. Argentina, Chile, Austrália e Estados Unidos estavam produzindo Chardonnays fantásticos. Ela se lembrava de ter degustado e gostado muito de alguns exemplares. François sabia que o mundo estava mudando rápido e que ele e sua família precisavam fazer algo.

Historicamente, a família de François cultivava Chardonnay e vendia praticamente toda a produção para os grandes negociantes de Champagne. Eles conseguiam um bom preço pelas uvas devido ao solo da propriedade ser formado por uma fina cobertura que cobria a imensa camada de greda, calcário e giz. Além disso, a orientação sudoeste dos vinhedos garantia uma excelente exposição ao sol e também protegia das chuvas e dos ventos. Apenas uma pequena quantidade de uva era vinificada na propriedade para atender às necessidades da família e de alguns amigos sortudos. François e Sophie, sua irmã, tinham um plano de lançar uma marca própria de vinhos secos. Agora que ela estava se formando, tinham o respaldo técnico para essa empreitada. Precisavam apenas convencer o pai.

François aos poucos despertava dos seus devaneios com os aromas do jantar prestes a ser servido na casa da família. E assim mais um dia de trabalho se encerrava naquela divina rotina de cultivar uvas para produzir estrelas. Até a próxima.

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